domingo, 19 de outubro de 2008

Björk



Björk é uma cantora que praticamente nasceu no cenário musical. Seu primeiro álbum, com seu nome como título (raríssimo de ser encontrado) trazia então uma criança de 11 anos entoando canções já consagradas (como The Fool in the Hill, dos Beatles) em sua língua materna.

Raríssimos cantores (e cantoras, muito menos) tiveram uma carreira tão vasta na música quanto ela; passou por bandas de formação indefinida, como Kukl, e outras que ninguém mais escuta, como Tippi Tikkrras; a de sucesso mais representativo foi Sugarcubes, que chegou a ter uma certa repercursão. Creio que talvez tenha sido quem mais cantou em estilos divergentes - o que a torna única em tudo que faz.



Após duas décadas fazendo músicas que não eram divulgadas muito além da Islândia, Björk renasceu musicalmente logo após lançar Gling-Gló, cd de jazz em parceria com outra banda - com Debut, explodiu internacionalmente. Como o próprio nome sugere, e como ela mesma explica, é sua iniciação oficial como música - não tão experimental como provaria ser mais tarde, mas mesmo assim diferente do que se ouvia por aí.
Nesse álbum, vários de seus maiores sucessos estão presentes - e nota-se um pouco da euforia dos anos 80 como influência, mas de forma bem sutil. O cd, de um então longínquo ano de 93, animou ouvintes que procuravam outras coisas que não a ascensão assutadora das boy bands americanas. No entanto, Björk deixou claro em entrevistas que não era para as pessoas ficarem muito excitadas com ele - afinal, poderia fazer muito melhor.

Com Post, Björk deu continuidade ao que havia feito no seu 'primeiro' álbum. Não à toa, temos o par 'Debut-Post' - o primeiro e o segundo. Nessa obra, ela parece estar mais eclética do que antes, provando ser extremamente bem-estruturado colocar numa mesma edição músicas pesadas, melancólicas e ainda abrasileiradas, como Isobel (influência de Elis).

Björk passa a ser Björk como a conhecemos de verdade - ou seja, esquisita ao olhar de muitos e genial ao olhar de outros - a partir de 97, com o lançamento de Homogenic.
É importante ressaltar que a partir daí, as músicas passam a ser mais intimistas e profundas do que nunca; todas as canções têm um significado muito particular, situações específicas e sentimentos inéditos que a levaram a compôr músicas às vezes difíceis de se escutar.
No Homogenic há a questão da volta à casa; não fisicamente, mas internamente. Muitos elementos de sua terra natal são abordados. É talvez seu álbum mais obscuro - o que nunca passaria pela cabeça de quem o escuta até ler a respeito das histórias por trás de sua produção, nem se não prestamos uma enorme atenção à musicalidade.
Björk diz:
"Homogenic is a woman who was put in an impossible situation with a lot and lot of restrictions, so she had to become a warrior, but she fought back not with weapons but with love".
Ou ainda:
"Emotionally, this album is about hitting rock bottom and earning your way up. So it's the darkest album I've done emotionally, but it's got a lot of hope".

Ah! Alguns anos mais tarde, Björk viria a atingir seu ponto mais alto, sua genialidade encarnada, sua senbilidade exposta e intimidade dilacerada. Vespertine é para a maior parte dos fãs o melhor álbum, e não à toa. O tema em torno dele vai de oposição ao que Homogenic representou. Dessa vez, todas as canções giram em torno de uma celestialidade nunca antes vista ou escutada em suas músicas. São canções calmas, ternas e ao mesmo tempo dolorosas sensivelmente. A respeito dessas impressões, ela fala que Vespertine is like... those days when it's snowing outside, and you're inside with a cup of cocoa and everything's very magical. You're euphoric, but you don't speak for days 'cause you don't want to".


Nesse contexto de calmaria interna e externa, Björk lançou em 01 essa obra-prima musical, aplaudida por todos. É dessa época o famoso vestido de cisne - que para os leigos, é um dos símbolos do álbum, a pureza angelical.

Em 2004 Björk lançou Medúlla, seu álbum mais polêmico e menos apreciado. Particularmente, é meu favorito - e mais uma vez foi contra tudo o que ela havia feito antes, e depois. Enquanto em Homogenic e Vespertine prezava-se a harmonia musical, em Medúlla isso é negado de forma radical. Quase todas as músicas são compostas apenas de vozes - sem instrumentos. Eles são presentes apenas em duas músicas - Ancestors e Desired Constellation. É, portanto, a obra mais experimental, em que são testados os limites máximos que a voz permite. Como deu para perceber, todos seus following albuns são respostas aos anteriores, e nesse não é diferente. Em turnê, Björk ia com uma orquestra gigantesca na época do Vespertine; em Medúlla, poquíssimas pessoas iam, além dela, ao palco.



Volta, ano passado, traz mais uma vez elementos inéditos. Dessa vez, os sons são apreciados de forma única novamente, com batidas e arranjos orgânicos. Em parcerias curiosas, Björk conta com a participação (não vocal, apenas em produção) de Timbaland, e com o acompanhamento em dueto de Antony Hegarty, tão sensível e intrigante quanto ela.
Temas globais são tratados nele - musicalidade indiana, chinesa, ocidental e oriental são abordadas, permitindo uma maior integração sonora. Humildemente acho que dessa vez, Björk se preocupou menos com problemas pessoais - e dessa vez, tem cantado as dores e problemas do mundo. Earth Intruders, a primeira faixa do álbum e o maior sucesso comercial, foi inspirada após suas viagens aos países assolados pela Tsunami. Declare Independence foi cantada em situações de extrema delicadeza diplomática e política - no Tibet, por exemplo. Ao berrar essa frase no show, Björk foi proibida de entrar em solo chinês por propagar as rebeliões. Nattura, seu próximo single - a ser vendido no iTunes amanhã, por sinal - tem fundos arrecadativos como função.

Por toda sua genialidade, originalidade e ousadia, Björk é uma de minhas cantoras favoritas; e alcança lugares dentro de mim que pensei fossem inatingíveis. Suas viagens musicais - interiores e exteriores - dentro e fora dela - me atingem de uma forma que apenas ela consegue.




Post dedicated to Arthur.

Um comentário:

Arthur disse...
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